Cadê Regina?

 14 de maio de 2020 

Por Luís Barbosa

Há cerca de duas semanas, diversos profissionais da cultura publicaram um vídeo em que perguntavam, em tom de ironia, “Cadê Regina?”, em referência ao “sumiço” da atual Secretária Especial de Cultura, Regina Duarte. Depois de sua posse, e desde o início da quarentena que fechou espaços e equipamentos culturais, deixando sem trabalho e sem renda milhares de trabalhadores do setor cultural, Regina praticamente desapareceu, deixando à deriva e sem amparo aqueles a quem ela chama de “os meus”.

Na última quinta-feira (07/05/2020), Regina finalmente apareceu, numa entrevista para a CNN. Vinha de uma audiência, no dia anterior, em que teria apresentado ao presidente seu programa para a Secretaria. A entrevista se iniciou amistosa, com a secretária elogiando a rede de televisão por sempre “mostrar os dois lados”. Acabou mal, quando a produção do canal colocou no ar uma fala de uma antiga companheira de emissora, Maitê Proença, pedindo que Regina ouvisse os seus e fizesse algo pelo setor. A namoradinha do Brasil “chilicou” (segundo suas próprias palavras) e abandonou a entrevista, embora tenha dito que ainda tinha muito por mostrar do que estaria fazendo pela cultura do país.

Para além do chilique, soubemos o que Regina realmente pensa sobre cultura, regimes ditatoriais e sobre sua própria função como servidora pública. Houve quem dissesse que a secretária seria “burra”, “louca”, “despreparada”. Não é nada disso. Regina Duarte assumiu seu derradeiro papel, aquele para o qual tem se preparado desde sempre, o de “namoradinha fascista do Brasil”. Não foi por acaso que a ex-atriz (conforme os jornalistas de sua antiga emissora) aceitou participar de um governo racista, machista, homofóbico, preconceituoso… Regina apenas tenta encarnar uma versão “leve” do monstro… em vão.

Tal qual o chefe, Regina desacredita a imprensa: “a gente vive um mundo tão distorcido em alguns veículos de imprensa”, embora afirme que não acompanha as notícias, para “não se contaminar”. Como boa representante da ala feminina do governo, porém, a secretária se mostra recatada, mesmo ao fazer as críticas – não lê mais o “filósofo” Olavo de Carvalho porque ele diz muitos “palavrões, nomes feios”.

Como boa bolsonarista, Regina tenta desconstruir a política e demonstra, além disso, um completo desconhecimento sobre o que seja justamente o objeto da Secretaria que comanda – “o pessoal da cultura não tem partido, a cultura está acima dos partidos, das ideologias”. Os subterfúgios de que se vale para lidar com as contradições são semelhantes: a secretária se vale de narrativas confusas, recheadas de interpolações sem sentido cujo objetivo final é desviar do assunto, culpabilizar e atacar interlocutores, “É crime gravar, não é? É uma pergunta que eu faço aos advogados”.

Ao ser questionada sobre a ausência de manifestação pública da Secretaria sobre as mortes de alguns expoentes da cultura, como Aldir Blanc, Flavio Migliaccio, Rubem Fonseca e Moraes Moreira, entre outros, a secretária admitiu ter sido cobrada, por sua assessoria de comunicação, por um pronunciamento oficial do órgão. Numa versão mais branda do “E daí?” e do “Eu não sou coveiro!” de seu chefe, devolveu aos jornalistas: “Eu imaginei assim, será que eu vou ter de virar um obituário, a Secretaria virar um obituário?”.

Como outros membros do governo e contradizendo o princípio da impessoalidade, Regina crê que cabe a ela decidir, de acordo com seu gosto pessoal, aqueles que merecem reconhecimento e homenagem: “Ricardo Brennand é uma pessoa que eu amava… pessoa importantíssima para a cultura”. Não se trata aqui, claro, de diminuir a importância ou afirmar que o empresário e colecionador não merecesse homenagem, mas os pesos e as medidas parecem oscilar ao sabor de suas preferências quando cita, por exemplo, o amigo: “Mas esse eu conheci, cada vez que eu ia a Recife, ele convidava para ir na casa dele, entendeu?… jantar… Eu tive intimidade com aquele homem de cultura, profundo mecenas, grande homem, exemplo…” e ao se referir aos demais nomes da cultura que faleceram recentemente “o reconhecimento, ou ele existe ou ele não existe… o país está cultuando a memória deles, não precisa da Secretaria de Cultura”.

Sobre as razões que a fizeram apoiar e aceitar participar do governo Bolsonaro, Regina é enfática: “… eu acredito que ele era e continua sendo a melhor opção para o país”. Sobre suas falas odiosas, seu apoio à ditadura e à tortura? “Eu não quero ficar olhando pra trás, se eu ficar olhando para o retrovisor, vou dar trombada… tem que olhar pra frente, tem que ser construtivo, tem que amar o país”. Sobre os mortos na ditadura? “Cara, (…) na humanidade não para de morrer, se você falar ‘vida’, do lado tem ‘morte’ (…) sempre houve tortura…”.

Numa outra emulação de seu atual patrão, que já disse em referência aos familiares da guerrilha do Araguaia que ainda procuram seus mortos, que “quem procura osso é cachorro” e hoje desdenha dos mortos pelo coronavirus: “Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões, eu acho que tem uma morbidez nesse momento, o COVID está trazendo uma morbidez insuportável…”

Falas sobre as ações da Secretaria em apoio à classe dos trabalhadores da cultura na pandemia? Sim, houve: elas se resumem à “ajuda” de R$ 600. Depois? “Depois ninguém sabe o que vai acontecer”. Foi anunciada ainda uma vitória de seus 60 dias de gestão: um decreto que reestrutura a Secretaria e a retirada da alçada do Ministério da Cidadania. Como isso ajuda os trabalhadores da cultura? Não se sabe… Mas a sua “primeira instrução normativa”, “a gente nunca esquece”, permite aos proponentes com projetos em andamento ampliar o prazo para prestação de contas, desde que haja justificativa, claro, afinal “não é flexibilização, é aumento de prazo”… porque uma pandemia não parece ser justificativa suficiente, obviamente.

Poderia estender-me sobre outros descalabros da entrevista, mas paro por aqui. Como dito no início, a entrevista é encerrada abruptamente pela secretária que inicia a conversa elogiando a postura da emissora, permitindo que os dois lados falem, mas que se mostrou incapaz de lidar com o contraditório, apelando para assessores e seguranças para encerrar a tentativa de diálogo.

O que fica claro é que, a despeito da imagem de boa moça, a “namoradinha do Brasil” se mostrou autoritária, refratária ao diálogo, intransigente. A Secretaria de Cultura, como tantas outras secretarias e ministérios, se transformou em palco de inércia e descaso para com os cidadãos a quem devia servir. Até o momento de encerramento deste texto, as únicas ações concretas da pasta em apoio aos trabalhadores da cultura foram o já referido “aumento de prazo” para a prestação de contas dos projetos em andamento e a prorrogação do pagamento de parcelamentos de projetos.

Sobre como vão sobreviver os trabalhadores da cultura não contemplados pelo mecanismo excludente da Rouanet e seus correlatos estaduais e municipais, que viram seus espetáculos cancelados ou como vão sustentar os espaços onde se apresentam e dos quais tiram seu sustento? Apenas um “Depois ninguém sabe o que vai acontecer”. E não se sabe mesmo o que acontecerá enquanto tivermos à frente do país e da pasta da Cultura o fascista e seu fantoche.

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