Aníbal Machado

09/12/1894 - 20/01/1964

Comunista surrealista


Nascido em Sabará, Minas Gerais, em 1894, Aníbal Machado, além de autor de romances e contos como “Viagem aos seios de Duília”, João Ternura (“suma feérica de mil prodígios poéticos e romanescos em perpétuo desdobramento”, segundo Astrojildo Pereira), Cadernos de João, “Tati, a garota” e “A morte da porta-estandarte”, alguns adaptados para o cinema e para o teatro (“O piano”), foi jogador de futebol (Atlético Mineiro), crítico de arte e de cinema e literatura e promotor de justiça.


Em 1935, publicou na revista Movimento, do Clube de Arte Moderna do Rio de Janeiro, apreendida pela polícia, o ensaio “Mostra de arte social”, onde analisa: “Até agora, as grandes camadas populares têm esperado em vão encontrar nas telas dos pintores o que corresponda às exigências profundas do seu instinto, o reflexo de suas inquietações e aspirações coletivas. E por que não o encontram? Porque os nossos artistas do colorido têm estado a serviço apenas de uma classe e contribuindo para organizar os deleites egoísticos da parte morta da coletividade, justamente aquela incapaz de criar alguma coisa que não seja morbidez, convulsão histérico-sexual ou exibicionismo ridículo. Esses elementos, que a sociedade em declínio oferece aos seus últimos pintores, podem servir de motivos para a sátira, nunca, porém, de temas para a exaltação e apologia. Dizia Plekhanov que a arte a serviço de uma sociedade em declínio não facilita a luta pela existência dessa classe; apenas distrai a sua ociosidade. Nada mais exato. E quando essa sociedade enfraquecida e desesperada tenta ainda, sob forma de fascismo, a última reação contra os sintomas de morte, nada consegue da arte para reerguer as suas forças. Não sei se os ouvintes se recordam da resposta de Eisenstein, cineasta russo, ao ministro Goebbels que falara da reabilitação do cinema na Alemanha e que citara o nome do criador do Encouraçado Potemkin: ‘Eisenstein mostrou com energia a Goebbels que era impossível uma arte apoiada na mentira’. Plekhanov não está vivo para ver na pobreza da arte fascista a confirmação integral de sua afirmativa.”


Em 1937, resenhando um espetáculo de bonecos italianos (“piccoli”), para a coluna ARTES da revista Dom Casmurro, Aníbal Machado lembra um Walter Benjamin mineiro: “A meu ver, porém, é no grotesco caricatural que os piccoli atingem as suas melhores e mais surpreendentes possibilidades. Vem-nos então a vontade de sugerir ingenuamente ou – se esses diabólicos bonecos já não os têm em seu repertório – de pedir outros espetáculos de sátira e realismo social; uma recepção mundana, por exemplo; uma noite no albergue noturno; um comício popular, os oradores gesticulantes à vibração da multidão e a infalível carga de cavalaria no final...”


Em 1943, comprou uma casa em Vassouras. Em 1944, foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores e ajudou a fundar o Teatro Experimental do Negro. Em janeiro de 1945, em São Paulo, abriu o I Congresso Brasileiro de Escritores. No mesmo ano, saiu candidato a deputado federal pelo PCB em Minas Gerais, mas teve apenas 10 votos..


Ainda em 1944, em seu ensaio “Os russos”, ele comenta alguns aspectos da literatura soviética: “Enquanto muitos hesitavam, outros mais novos e arrojados tomavam a dianteira e, organizados em grupos e associações literárias, procuravam impor uma arte que traduzisse as aspirações e a alma do proletariado no poder. Surgiram manifestos e discussões. Os extremistas – Maiakovski à frente – pediam o rompimento completo com a tradição da arte burguesa e esperavam que um estilo novo nascesse da ideologia revolucionária. Os moderados – Lunatcharski, Lênin e outros – aconselhavam o aproveitamento do que a cultura burguesa trouxera de melhor para o alargamento da experiência humana e o enriquecimento da sensibilidade artística. [...] Críticos e ensaístas, animados pela atitude dos líderes políticos, procuravam bases teóricas que diferençassem a arte burguesa da proletária. Tanto dentro como fora da União Soviética, realizaram-se congressos em que se debatia o problema da função da arte e do escritor em face da Revolução. Nesses debates intervieram com oportunas considerações os escritores revolucionários de outros países. [...] Em abril de 1932, o próprio partido, pelo seu Comitê Central reconhecendo que ‘os quadros das associações literárias e artísticas proletárias existentes se tornaram muito estreitos e dificultam o desenvolvimento da criação artística’ – resolveu abolir a ditadura literária e condenar a política de intransigência nesse terreno. Suprimiu a Associação dos Escritores Proletários e aconselhou os escritores de vários grupos a que se unissem ao objetivo comum da edificação socialista. Finalmente, o Congresso dos Escritores Soviéticos, em setembro de 1934, adotou a fórmula do [diretor da União dos Escritores] romancista [Leonid] Sobolev: ‘O governo e o partido concederam aos escritores todos os direitos, salvo o de escrever mal’. [...] Isso mostra que, sem o rigor da forma e o respeito às leis da criação literária, qualquer produção, por mais revolucionária que seja de intenções, não terá direito a existir como obra de arte. Em consequência, as produções melhoraram de qualidade. Talentos novos provindos de classes há pouco analfabetas e oprimidas revelaram a sua vocação.”


Em 1946, publica na revista  Literatura o ensaio “A poesia na Resistência Francesa”, no qual cita Eluard, Desnos, Aragon, que termina assim: “O que cumpre agora aos poetas e escritores de França, como a todos os espíritos do mundo livre, é vigiar pelos valores que ajudaram a recuperar participando da epopéia do homem da rua. Se os poetas costumam, às vezes, afastar-se dos acontecimentos, se reclamam para si certa margem de sonho e de silêncio, hão de ser arrastados à ação e desalojados de seus nichos toda vez que estiverem ameaçados os valores fundamentais da criatura humana. As formas de sua poesia dependem também da composição social da vida. E parece que ainda não é chegado o tempo de se recolherem a seus nichos. Pois a paz continua ameaçada, mesmo à sombra da pirâmide de mortos que foi preciso erguer-se para salvar a liberdade. Liberdade, hoje, tão essencial, tão natural ao homem, que seu maior perigo é confundir-se com as coisas que, para terem existência, não precisam ser lembradas e protegidas como o sol, as águas e o vento...”


Em 1956, publica na revista Para Todos, “Teatro poético e realista”, na morte de Brecht: “O teatro dramático, na sua concepção tradicional, oferece o perigo de reforçar os valores da consciência burguesa mistificada, integrando o espectador ao espetáculo; e o teatro psicológico insiste em apresentar conflitos morais, cuja razão de ser, as exigências revolucionárias do povo, geradas pelas suas novas condições sociais e econômicas, tornaram caduca ou inexistente.”


Ao morrer, em 1964, deixou seis filhas e muitas obras inéditas, como um “Vocabulário” em um caderno, do qual um trecho foi publicado em 94: “Sacanóides. As mulheres sorridentaduras. Cornalgia. O andar bundejante das gordas. Os infracoisas, os subcornos, os putólatras, batatal, merdavilhoso, suavinas (curvas), esculhambatrizes, damas da espermatocracia (riscado: carioca) social, atletóides, andaluzas velejando os chales sobre a multidão. Ternura metido no familharal de um português ricaço.”